Manual de ausências
Continuo a procurar-te.
Dentro de cada C3 cinzento com barras de tejadilho.
Em todos os ciclistas com que me cruzo.
Nos perfis das dating apps que instalo.
Dentro de cada bata branca, em cada visita ao hospital.
Procuro-te no par masculino
de cada casal que me passa à frente,
de mão dada no passeio.
Procuro-te quando passo pelo Zerozero.
Nas mesas da esplanada.
Naquela mesa onde nos vimos.
E onde já não estás.
Procuro-te à porta do Nimas,
depois de uma sessão que terminou.
Perscruto cucurutos à procura de uma linha familiar.
Procuro-te na TV.
Ligo-a sem ver,
à espera de reconhecer a tua voz ao longe.
Procuro-te à noite,
Na cama.
Às vezes volto a sentir
as tuas mãos.
A tua boca.
O teu sexo.
Recordo o teu sorriso.
Aquele que fazes,
quando te apanho de surpresa
com uma piada porca inesperada.
Recordo aquele beijo na calçada da Ajuda.
Lento.
Lânguido.
Cheio de tesão.
A mesma tesão
com que me deixaste no trabalho depois de almoço.
Recordo os teus dedos na palma da minha mão,
a desenharem círculos intermináveis.
E pergunto-me:
será que também tu me procuras?
Por entre os condutores com que te cruzas.
Quando vais de bicicleta.
Quando fazes uma prescrição de Fosfomicina.
Quando vais ao Nimas,
porque sabes que a minha melhor amiga mora naquela rua.
E pergunto-me:
Se o teu corpo também se lembra do meu?
Se os teus dedos ainda desenham círculos no ar
quando estás distraído?
Se vês a minha sombra nas pessoas que passam?
Ou quando sintonizas uma estação de rádio
e ouves Pink Rabbits, dos The National, a tocar.
Ou se, pelo contrário,
foste capaz de me esquecer.


Eu acho que a questão não esquecer. Provavelmente ele não te esqueceu. A verdade dolorosa é apenas que ele teve mais importância na tua vida do que tu na dele…